Histórias de Luta: Cândido de Oliveira
Cândido de Oliveira praticou Luta
As histórias começam sempre pelo início. E o pontapé de saída da seleção nacional de futebol foi dado, em Madrid, no dia 18 de dezembro de 1921. À frente do 11 português pontificava Cândido de Oliveira, um alentejano de Fronteira. No passado dia 19, em Estocolmo, Ronaldo e companhia entraram em campo para conquistar a presença na fase final do Mundial do Brasil. Nos bastidores, uma jovem alentejana afinava a garganta para cantar a capella o hino nacional. Assim não o quiseram os responsáveis da Federação Portuguesa de Futebol, e “A Portuguesa” ouviu-se sem a alma alentejana que Vera Guita, certamente, lhe entregaria.
Corria o ano de 1896 quando, no dia 24 de setembro, nasceu em Fronteira Cândido Fernandes Plácido de Oliveira. Último de uma família de 10 filhos, aos nove anos ficou órfão de pai. A Casa Pia de Lisboa foi o seu destino e a sua escola.

Desde cedo que o aluno número 3 466 dos “gansos” se deixou apaixonar pelo football, sem que isso, porém, o impedisse de praticar Luta Greco Romana – disciplina em que foi campeão nacional –, ou o “jogo da azeitona” como se chamava, então por cá, ao râguebi.
Apesar do espírito eclético, ganhou o futebol e, com apenas 18 anos, ingressou na primeira categoria do Sport Lisboa e Benfica, em que foi campeão vários anos e de onde saiu em 1920 para fundar o Casa Pia Futebol Clube.
Cedo deixou de jogar, mas as “qualidades humanas” reconhecidas por todos que com ele lidaram levaram-no, com 32 anos, ao comando técnico da seleção nacional que em Amesterdão, em 1928, atingiu os quartos de final do Torneio Olímpico.
No entanto, os interesses de Cândido de Oliveira não se ficavam pela prática desportiva. Funcionário dos CTT e colaborador de vários jornais da época, possuidor de uma forte cultura humanista e militantemente antifascista, mestre Cândido tornou-se agente anglófilo, integrando, clandestinamente, o Special Operations Executive, com a tarefa de informar os Aliados acerca das movimentações das forças nazis em Portugal e preparar a resistência, na eventualidade de uma invasão alemã ao território.
A neutralidade de Salazar enviou-o, primeiro para Caxias (1942), e depois, durante 16 meses, para o Tarrafal, em Cabo Verde, onde escreveu o livro O Pântano da Morte, editado já depois da sua morte, após o 25 de Abril de 1974.
Depois de libertado, em 1944, e com a vida profissional “congelada” pelo Estado Novo, regressou ao futebol. Foi treinador da célebre equipa do Sporting Clube de Portugal conhecida por “Cinco Violinos”, Académica, FC Porto e, numa curta experiência no estrangeiro, no brasileiro Flamengo.
Nesse mesmo ano, funda com Ribeiro dos Reis e Vicente Melo o jornal “A Bola”, ao serviço de quem se desloca a Estocolmo, em 1958, para cobrir o mundial que trouxe Pelé para a ribalta.
Foi aqui, que segundo relatos da época, mestre Cândido, embrenhado no trabalho, descurou uma pneumonia que o levaria ao hospital e à morte, na cidade onde há uma semana atrás a seleção portuguesa se qualificou para o Mundial do Brasil e os responsáveis da federação impediram que uma voz alentejana entoasse, alto e bom som, o hino nacional. Deve ter morrido outra vez.



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