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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Luís Barneto em entrevista para o Record

Luís Barneto: «Isto começou tudo com... O Sarampo»

Dia de desportos de combate na Prova Oral

Luís Barneto é uma das maiores figuras dos desportos de combate no nosso país. Comenta, treina, ensina e raramente vira a cara à luta quando o objectivo é dar a conhecer tudo o que de bom se faz no nosso país. Hoje, está na Prova Oral do Record.



1 – Como começou esta paixão pelos desportos de combate?
Começou com sarampo. Aos 7 anos apanhei sarampo e estive um bocado mal. Com o susto, a minha mãe finalmente cedeu e comprou-me a caderneta de cromos com o Bruce Lee na capa, que me fez começar a ler sobre artes marciais, quando ainda mal sabia ler. Durante os anos seguintes, o meu interesse pelas artes marciais e pelos desportos de combate foi-se acentuando, ao ponto de finalmente, em 1986 (com 16 anos), começar a treinar Karate. Muitos anos e estilos depois, há pouco mais de uma década, comecei a treinar e mais tarde a ensinar Jeet Kune Do Unlimited / MMA For The Street. O próprio nome aponta para a forte influência do MMA. Em algum momento os atletas começaram a interessar-se pela competição. Eu, enquanto instrutor convicto de ser um dos meus papéis potenciar o desenvolvimento dos meus alunos, seja qual for o caminho que escolhem percorrer, resolvi envolver-me no MMA. Tudo tem acontecido com naturalidade, desde então.

2 – O que consideras necessário para que estas modalidade evoluam ainda mais no nosso país?
Mais escolas, mais praticantes, melhor entendimento do público dos benefícios únicos deste desporto, e da possibilidade de o praticar sem necessariamente querer competir, o reconhecimento do desporto pelo IPDJ (que tarda em acontecer, apesar das conversações com o Exmo Senhor Secretário de Estado, realizadas há quase um ano, nos terem deixado a impressão de ser comum a todos os presentes o sentimento de urgência em regular e regulamentar no nosso país o desporto de maior crescimento no mundo, durante o século XXI), formação de treinadores (em desenvolvimento), mais promotores e promoções, maior exposição na comunicação social (ou seja, mais iniciativas como esta),

3 – O MMA teve um "boom" enorme nos últimos anos. Não sentes que agora qualquer pessoas quer ser lutador de MMA, só pelo mediatismo da modalidade?
Gostaria de dizer que sim. Para mim, pouco importam as razões para começar. Invariavelmente, todos acabam a praticar pelas razões certas, independentemente do que os levou a iniciar, portanto, se o motivo fosse esse, seria tão bom como qualquer outro. Acontece que eu considero que o "boom" verificou-se mais no interesse pelo desporto, enquanto espectador, e menos (ou pelo menos não tanto quanto eu gostaria), enquanto praticante. É um desporto exigente, ainda que como prática desportiva lúdica, sem interesses desportivos, seja do mais completo que se possa praticar, e do mais eclético e compensatório que pode haver, já que competindo contra nós mesmos, o sucesso é sempre garantido, todos conseguimos melhorar quem somos, e mesmo competindo contra outros, nas vertentes competitivas, existem categorias de peso para todos, e todas. Acho, e espero, que o "boom" ainda esteja por realizar, pelo menos em Portugal.

4 – Já tiveste alguma situação fora de competição em que foi necessário utilizar os teus conhecimentos técnicos para "acalmar" alguém ou meter uma pessoa no lugar?
Eu tenho sorte. A maior parte das pessoas que se cruzam comigo ou sabem o seu lugar, ou têm a capacidade de se guiarem usando os meus argumentos não físicos, de volta a esse lugar. Como passei cerca de 10 anos a fazer trabalho de segurança em eventos, concertos, festivais de música, terei que dizer que já fui obrigado a usar algum conhecimento, mas felizmente nunca tive que magoar seriamente alguém.

5 – É mais fácil lutar ou ensinar a lutar?
Para mim, ensinar a lutar, sem dúvida! Porque é algo que faço naturalmente, e pelos vistos bem, e apaixona-me melhorar as pessoas. Ainda que tenha lutado, competido, inclusivamente num dos formatos de combate mais brutais que pode existir, Dog Brothers Full Contact Stickfighting, tenho em mim muito mais desenvolvidas as qualidades, capacidade e traços de personalidade que fazem de um tipo um bom treinador, do que as que fazem de um tipo um bom lutador / atleta.

6 – Vejo-te muito envolvido no projeto Wimp2Warrior. Como o podemos explicar em poucas palavras?
Numa frase, diria que o Wimp2Warrior é um programa de transformação de pessoas, rumo à melhor versão delas mesmas. De uma forma mais completa: o efeito das Artes Marciais na confiança, resiliência, e personalidade, são de todos conhecidos, mas não é um processo rápido, e não está ao alcance de quem não tem a paixão por essas artes ao ponto de as praticar durante uma vida e ir gradualmente atingindo esse patamar. Ou melhor dizendo, até agora não estava. Porque estamos perante um programa muito bem elaborado que visa, em 6 meses (mais concretamente 22 semanas) acompanhar 40 pessoas nesse processo, que culminará com a sua entrada na cage para o seu primeiro combate de MMA!
Não há quem não considere que entrar numa cage e e fazer um combate de MMA é das práticas mais extremas que um ser humano pode realizar.
Uns acharão fútil ou disparatado, seguramente, mas julgo que a maioria reconhece o desenvolvimento pessoal, físico, mental, técnico, intelectual, táctico, a disciplina, a coragem, a determinação e a força física e emocional que implica realizar essa tarefa, mais ainda, preparar-se para essa tarefa.
O W2W propõe-se levar pessoas normais, que nem sequer se conseguem imaginar a fazer algo assim, a tornarem-se essa pessoa extraordinária, a que muitos admiramos quando olhamos para os atletas de MMA. No final, cada um dos participantes será, tenho a certeza, um guerreiro do século XXI, cujas batalhas são diferentes dos séculos anteriores, pelo menos em países organizados e pacíficos como o nosso, mas são igualmente desafiantes, e por vezes esmagadoras. A vida dessas pessoas mudará para sempre.
O W2W tem, para mim a vantagem de ser um programa já amplamente testado e melhorado, com provas dadas, em constante desenvolvimento (bastará dizer que entre outros atractivos, está envolvido o nutricionista mais reconhecido junto dos atletas de topo do MMA mundial, o Mike Dolce, e teremos a visita para sessões exclusivas com estas pessoas do treinador John Kavanagh, recentemente eleito treinador do ano, de MMA, e conhecido pela maioria por ser o treinador do McGregor).
E por isso abraçámos, na Academia Unlimited, este desafio, que nos surgiu em forma de convite pelo próprio John Kavanagh, que é também o responsável pelo desenvolvimento deste programa na Europa. Nesta fase, o W2W arrancará, em Outubro, simultaneamente em 5 academias na Europa, sendo que em Portugal e França pela primeira vez (no Reino Unido e Irlanda o programa já vai para 2ª e 3ª séries).

7 – Qual o melhor lutador com quem já te cruzaste? E o pior? (pode ser que ele não leia o Record ao domingo)
Os melhores para mim são os atletas da minha academia, os que já o foram, e os que o são agora. Não vou individualizar. E explico porque são eles. Porque são os que acompanho, e sei, vejo, o esforço que fazem, dentro e fora da cage, dentro e fora da Academia, e para mim o melhor atleta é sempre esse, o que faz o impossível, o que luta contra todas as dificuldades da vida para realizar o seu sonho, o seu destino. Como os atletas que treinam comigo são os que conheço tão de perto, são os que mais admiro. O melhor lutador, não directamente de MMA, mas relacionado com o MMA, que conheço, é o pai do Serginho (Sérgio Junior), meu atleta, porque o que aquele homem trabalha e luta para que os seus filhos se realizem é indescritível, e uma inspiração para todos.
A nível mundial, felizmente já tive a oportunidade de conviver e cruzar-me com alguns dos melhores do mundo, como o McGregor, o Faber, Randy Couture, e tantos outros.
O pior é o que não treina, vai fazer MMA para "ver como é", não se prepara e ainda se gaba disso, porque é muito talentoso, e tal... O que inventa títulos, o que finge ser o que não é. Como este desporto molda o carácter, mas não faz milagres, são muito poucos, desses. Provavelmente são todos ex-atletas, porque ninguém consegue ser atleta de MMA pelos motivos errados. E, ainda que poucos, conheci e conheço alguns desses mas não vou dizer nomes, claro.

8 – Passas os dias completamente entregue a modalidades violentas mas és das pessoas mais calmas e educadas que conheço. Isso é fruto de uma boa educação, claro está, mas há também um lado ético muito patente nestas modalidades?
Eu costumo dizer que as Artes Marciais e os Desportos de Combate podem não conseguir fazer de ti uma pessoa melhor, mas nunca farão de ti uma pessoa pior.
Gostava de afirmar que existe um condão qualquer nestas práticas, que são uma garantia de desenvolvimento humano, mas não é sempre assim. não há essa certeza. Um treinador pode ter mau carácter, um praticante também, e nenhuma prática mudar isso. Mas no geral, e desde que a prática implique exposição ao fracasso, oposição, resistência, dificuldade, desconforto, respeito e humildade, habitualmente mexe connosco, ou pelo menos ajuda a canalizar a violência que julgo ser intrínseca do ser humano, para uma prática de alguma forma inócua, porque segura e aceite pelas partes. Existem pessoas que me dizem serem incapazes de bater em alguém, numa competição, mas facilmente insultam pessoas que não conhecem, gritam com empregados, familiares, amigos, ferem emocionalmente e socialmente outros com bastante naturalidade, e isso sim, é uma forma de violência.
A violência, para mim, implica sempre a subjugação de um à vontade de outro. E isso acontece em todos os planos. E raramente acontece no tatami, porque todos querem estar, todos estão a evoluir, todos entram a procurar vir a ser o melhor, mas sabem, depressa aprendem, que a loucura é conseguir ser o melhor que conseguirmos ser. Alguns ganham agressividade que claramente precisavam ganhar. Outros controlam agressividade que claramente estava descontrolada. Existe um nivelamento para "valores adequados" dessa agressividade, em praticamente todos. No meu perfil do facebook está escrito "à procura da harmonia, mas preparado para o caos". Para mim, uma existência plena é o equilíbrio entre as nossas capacidades destrutivas, para os momentos em que se revelam fundamentais, de vida ou morte, e capacidades construtivas, para todos os outros, que são bem mais, felizmente.
As modalidades, como referes e bem, são violentas, e isso é inegável, mas desprovidas de violência, de acordo com a definição que aqui expressei, portanto sinto-me num processo de construção humana muito positivo e de extrema paz.

9 – Se agora chegasse um génio da lâmpada com 3 desejos, quais escolhias?
Não sou muito dessas coisas. Não jogo no Euromilhões. Acredito mais na conquista do que na sorte. Mas de certeza os meus desejos andariam todos à volta de saúde, para mim e para a minha família, para os meus amigos, para todos, porque não? Génio que é génio, tem que conseguir! Saúde porque é uma área que nem sempre conseguimos controlar, que não depende só do que fazemos, que não se conquista (pelo menos não sempre). Talvez pedisse também que todas as pessoas ganhassem a capacidade de se colocarem no lugar dos outros. Esse grau de compreensão seguramente mudava o mundo. O terceiro desejo guardava para a próxima situação que me surgisse à frente, em que nada pudesse fazer mas quisesse tanto intervir.

10 – Para terminar. Este combate McGregor vs. Mayweather é bom para os desportos de combate, ou pelo contrário, uma tremenda palhaçada?
Existe sempre algo de positivo e negativo em tudo. Eu costumo procurar o positivo. Uma palhaçada seria se colocássemos por exemplo um cantor, ou uma outra celebridade, a fazer este combate com o Mayweather. Falamos do McGregor. Cujo passado inclui muito Boxe, e cujo presente enquadra um curriculum de grande sucesso num desporto de combate com uma vertente de pugilismo, onde habitualmente ele prevalece, e precisamente usando os punhos. Não me parece de todo um disparate. É certo que temos de um lado um dos expoentes máximos de uma modalidade, e do outro alguém que, pelo menos a este nível, se vai estrear. Mas como sempre digo do MMA, é um desporto mas também é um combate. Tudo pode ser totalmente diferente do quase certo por causa de um milimetro, um segundo, um reflexo, um erro, um espasmo muscular. Não é uma palhaçada. Vai de encontro a um desejo normal das pessoas, o velho "e se". A meu ver, não prova nada, isso sim. Porque não será a vitória do Mayweather ou a vitória do McGregor que mudarão, ou pelo menos não deveriam mudar, a perspectiva de cada um dos desportos, até de cada um dos atletas, no público. Eu sei que para muitos será. Se o Boxe vence, o Boxe é o maior, se o MMA vencer, o MMA é o maior. E o mesmo com os atletas. Mas esse é o resultado da fama dos dois desportos, têm muitos fãs, muitas opiniões, muita ignorância e muito conhecimento, no meio de todas elas.
Estou curioso. Acho que o McGregor tem possibilidades, se encontrar um KO, não o terá se o combate fôr avançando, nunca pontuará mais do que o Mayweather. Dito isto, vou ver, como todos! Espero que a Sport TV passe!

11 – Quem quiser conhecer-te melhor e até quem sabe, treinar contigo, como pode encontrar-te? Em que projectos estás envolvido?
O meu nome é o meu perfil de facebook. Luis Barneto. Lá têm o meu telemóvel e email. Sou um dos treinadores, e um dos fundadores, da Academia Unlimited no Barreiro (também com perfil no facebook e o email academiaunlimited@gmail.com),
Em relação ao projectos... Não sei se terás espaço para os publicar!
Mas cá vai.
Estou apostado em levar ao maior número de pessoas a possibilidade de aprenderem e treinarem o Jeet Kune Do Unlimited, uma arte marcial de enorme aplicabilidade em situações reais, a maior resposta para defesa pessoal que já treinei e aprendi, que conjuga os principios de Bruce Lee com as pesquisas e experiência do meu instrutor, Burton Richardson. A Jeet Kune Do Unlimited Portugal tem programas para cidadãos, profissionais de risco, e crianças (Unlimited Kids - um programa que tem tido uma eficácia tremenda na resolução e prevenção de problemas de bullying, alguns bem complicados).
No MMA, encontro-me envolvido na CAPMMA - Comissão Atlética Portuguesa de MMA, onde desempenho funções de Director Executivo e também de Seleccionador Nacional. A ideia é consolidar o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido no MMA amador, em colaboração com os clubes, cujo resultado mais vísível foi a conquista da primeira medalha de prata para Portugal num Campeonato Europeu de MMA, já em 2017, pelo atleta Moreno Hortinha, mas existem muito mais conquistas, não tão visíveis, a acontecerem todos os dias. Pretendo também ver o MMA reconhecido como desporto pelo IPDJ e pelo Estado português. É uma batalha de vários anos que parece estar perto do fim, a fazer fé, de novo, nos contactos com o Exmo Senhor Secretário de Estado, em 2016. Continuarmos a melhorar as condições de segurança e competitividade, a qualidade dos oficiais, dos treinadores, de todos envolvidos.
Estamos a desenvolver, ao nível da Academia Unlimited, um projecto de acção social que pretendemos implementar, numa primeira fase, nos municípios do Barreiro e Moita, e mais à frente no país inteiro, fortemente inspirados por projectos de grande sucesso nesta área a acontecerem um pouco por todo o mundo, mas com destaque para o trabalho desenvolvido em Belfast pelo meu parceiro no "Coaches Committee" da IMMAF - International Mixed Martial Arts Federation, Danny Corr.
Ao nível da Academia Unlimited, quero continuar a potenciar o sucesso dos nossos atletas, nas diversas áreas, do MMA ao Grappling, do Jiu Jitsu ao Wrestling, e apoiar as academias que nos têm contactado querendo ser nossas representantes nas suas cidades, querendo assegurar uma qualidade técnica e organizativa ao nível da nossa, e essa ideia de fazermos chegar a mais pessoas os nossos princípios, métodos, é algo que se encaixa perfeitamente na nossa filosofia de mudança do mundo, uma pessoa de cada vez.
Continuo envolvido na Associação de Lutas Amadoras do Distrito de Setúbal, neste momento não tanto quanto gostaria, e na Federação Portuguesa de Lutas Amadoras, onde tenho responsabilidades de desenvolvimento das modalidades associadas, nomeadamente o MMA, Grappling, Pancrácio e Beach Wrestling.
Quero manter-me a comentar o UFC na Sport TV enquanto tiver voz, porque é algo que me permite intervir no entendimento que as pessoas possam ter do que é o "meu" desporto de combate, e me diverte imenso.
Fiz parte do Grupo de Trabalho que desenvolveu o sistema de graduações que a IMMAF - International Mixed Martial Arts Federation vai agora implementar, para o mundo inteiro, e encontro-me agora envolvido na formação de treinadores de MMA, nos cursos de nivel 1 e nivel 2, que serão realizados pela IMMAF nos países seus filiados, começando por ir a Dublin, agora em Julho, para ministrarmos o primeiro curso na Irlanda, a um grupo muito alargado de treinadores, cuja experiência vai de certeza enriquecer-me, também. Esperamos ainda este ano ter esse curso em Portugal.
Continuo a representar a BoomBoxe na Europa, porque os seus equipamentos de treino são algo como nunca vi, e quero muito ver os clubes de MMA e desportos de combate usufruirem desse equipamento, como o fazem as academias na América do Sul e nos EUA.
Quero arrancar o mais depressa possível com o evento de MMA amador UNLIMITED MMA, porque quero potenciar todos os contactos internacionais que tenho nesta área, e permitir aos nossos atletas competirem com atletas de outros países, sem terem que se deslocar sempre lá fora. Sei que vai ser um sucesso!
E, claro, o Wimp2Warrior. É bom ter em mãos um programa que sei que mudará vidas, e que me ajudará a dar a imagem do MMA que é importante chegar ao público. Mal posso esperar que comece!

Autor: João Seixas
Fonte: Record
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