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sábado, 24 de setembro de 2016

Jornal de Leiria retrata Orlando Gonçalves

Orlando, o marinhense “por acidente” que lutou em dois Jogos Olímpicos


Roma 1960 Em época de Jogos Olímpicos recuperamos a história daquele que terá sido o primeiro atleta olímpico nascido no distrito de Leiria. Senhoras e senhores, eis Orlando Gonçalves





Corria o dia 13 de Abril de 1938 quando na feira da Marinha Grande se ouviram os berros de um bebé acabado de nascer. A dona Ângela estava de esperanças, mas pretendia regressar a Lisboa a tempo da realização do parto. Só que o pequeno Orlando, com pressa de nascer, acabou por precipitar os acontecimentos e marcar a então vila vidreira, de forma definitiva, no seu bilhete de identidade.

Os pais do pequeno Orlando levavam uma vida itinerante. Com os seus carrosséis, um divertimento absolutamente indispensável nas feiras das cidades, vilas e aldeias de Portugal, proporcionavam alegrias a meninos e meninas, senhoras e senhores. Abril era o mês da feira da Marinha Grande e em 1938 foi ponto de paragem para o negócio da família Gonçalves.

O que ninguém imaginaria é que esse rapaz viria a ser atleta, ainda por cima olímpico, e logo em duas ocasiões. Tão apressado que era, até poderia ter sido um sprinter de referência, mas Orlando Gonçalves acabou por destacar-se nas lutas amadoras.

Segundo o site sports-reference.com, terá sido o primeiro atleta natural do distrito de Leiria a participar nos Jogos Olímpicos. Já lá vão 56 anos…

Antes dele só mesmo João Fragoso, nascido nas Caldas da Rainha em 1913 e falecido em 2000, que terá participado na última vez que foram disputadas provas de… arte. Foi em 1948, em Londres, e as medalhas eram atribuídas nas categorias de arquitectura, literatura, música, pintura e escultura a obras de arte inspiradas em desporto.

O convite do irmão

Para Orlando Gonçalves, tudo começou por um convite do irmão, Gentil, que, em Lisboa, onde residiam, praticava luta às escondidas dos pais. “Eu nem sequer sabia, ele nunca tinha contado nada em casa, porque então praticar luta era mal visto e associado à brutalidade. Tinha uns 14 ou 15 anos e ele perguntou-me se queria ir a uns treinos ao Benfica.

'Praticas isso?', perguntei-lhe. Respondeu que nunca tinha dito nada por causa da mãe.”

Orlando foi. E gostou. Depois de muito treino e de muito rebolar pelo tapete, os resultados começaram a aparecer, conquistando vários títulos nacionais. Passou a ser chamado para provas internacionais de luta greco-romana, mas o desporto não lhe dava dinheiro. Por isso, manteve sempre a profissão de electricista-mecânico.

Quando soube que tinha sido seleccionado para os Jogos Olímpicos de Roma, “foi uma grande alegria”. “Até porque é o corolário da carreira de qualquer atleta. O esforço despendido foi recompensado.”

Chegado a Roma, apanhou um susto. A balança colocava-o acima dos 57 quilos permitidos. Correu, fez sauna, voltou a correr, mas o peso não baixava. Até que perceberam que o problema estava na balança e tudo se resolveu.

Outro problema era a qualidade dos adversários. “Sabia que ia lutar com os melhores do Mundo”. Orlando levou os combates até ao fim, mas o saldo foram duas derrotas por pontos, com o búlgaro Petrov, que viria a ser medalha de bronze, e com o sueco Vesterby, que terminaria a competição no quarto lugar. “Estava em desvantagem”, explica o lutador. “Eles treinavam mais e nós tínhamos métodos de treino desactualizados.”

Emigrou para a Alemanha, onde exerceu a sua profissão ligado ao universo Mercedes, mas continuou a lutar. Como os Jogos de 1972 eram em Munique, questionou a federação se se ganhasse as provas nacionais poderia voltar a participar na maior competição do Mundo. Disseram-lhe que sim. Foi o que fez.

Além da luta greco-romana, Orlando Gonçalves participava também em competições de luta livre olímpica, modalidade “que não era praticada em Portugal”. Foi precisamente nesta disciplina que o inscreveram. “A minha especialidade era greco-romana, não foi muito do meu agrado”, desabafou.


Doze anos depois estava então de regresso. Voltou a perder os dois combates que fez. Frente ao turco Akdag, que viria a conquistar a medalha de prata, e com o polaco Stolarski. “Nalguns casos o que fez a diferença foi a rotina e o traquejo”, salientou Orlando Gonçalves. “O treino dá-nos as ferramentas, mas se não soubermos usar o que aprendemos não podemos tirar vantagem. Tínhamos um calendário competitivo de baixo nível e, quando assim é, o melhor cristaliza, porque não põe o raciocínio em movimento.”

Depois de 12 anos na Alemanha, regressou a Portugal. Em 1976 voltou a estar presente nos Jogos Olímpicos de Montreal, no Canadá, mas já na condição de seleccionador nacional, cargo que ocupou até 1989.

Hoje, Orlando Gonçalves está preocupado com o futuro da modalidade. “A luta tem estado a cair a pique desde 2000. O último atleta olímpico participou em 2004. Os clubes pequenos foram fechando a loja e está tudo a morrer aos poucos.”

E pronto, esta é a história daquele que terá sido o primeiro atleta natural do distrito de Leiria a participar nuns Jogos Olímpicos. Orlando Gonçalves, hoje com 78 anos, garante, contudo, que a ligação à região “não foi mais do que um acaso” devido à sua enorme vontade em nascer. “Sei que regressei à Marinha Grande duas vezes. Uma tinha sete anos, quando os meus pais voltaram a passar na feira, e a outra já mais tarde, há cerca de 25 anos.

Gentilmente cedido pelo Jornal de Leiria
Fotos: Jornal de Leiria
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