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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MaisFutebol reporta CM União

O Musical está na luta e leva os miúdos consigo

É um dos clubes mais antigos de Lisboa. Se no campo desportivo pode gabar-se de ser tricampeão nacional em título, no plano social mexe com o bairro… e arredores




Corria o ano de 1932 quando se realizaram as primeiras marchas em Lisboa. Houve três bairros participantes: um deles foi o do Alto do Pina. Na fundação deste primeiro desfile que aconteceu no Parque Mayer esteve o Clube Musical União.

Este é um exemplo de como a história do Musical se cruza com a história do Alto do Pina. Este é um exemplo de como a história do Musical se cruza com Lisboa e com os lisboetas. Os do bairro e também já não só.

A história do Musical começa, porém, ainda mais cedo. Começa no ano de 1884, quando foi fundado a 2 de março. É verdade: o Musical faz daqui a menos de dois meses 130 anos! No nº11-A da Rua 4 de Agosto, entre as ruas Barão de Sabrosa e Sabino de Sousa, haverá daqui a pouco tempo mais motivos para festejar num dos mais antigos clubes da capital.

Esta é a sua terceira sede – sempre com o Chafariz do Alto do Pina ao alcance da vista. Para trás está o passado. Para trás ficou a fanfarra que outrora tocou pela arte dos homens daquelas bandas. Para a memória ficaram o futebol, o atletismo ou o ténis de mesa, que também a seu tempo envergaram a lira do Musical. Pelo meio ficou também um incêndio em 1990 a que o Musical sobreviveu, mas que o deixou praticamente sem história documentada.

Seis anos esteve o clube fechado à espera de poder estrear a nova casa. Seis anos em que os sócios não deixaram de pagar as quotas até à reabertura do clube do seu bairro, em 2005, órfão nessa altura da prática de qualquer modalidade. Os tempos mudam, a luta pelo clube continua; nas suas várias formas, adaptadas aos dias de hoje, em que há redes sociais ou reformas administrativas.

No Musical, a luta estendeu-se ao tapete em 2010. No ano seguinte estreou-se na competição. No presente, as lutas amadoras (greco-romana e livre-olímpica) são a exclusiva prática desportiva da colectividade. Os resultados são ímpares. O Musical venceu os três primeiros campeonatos nacionais por equipas (masculinos) em que entrou, as Taças de Portugal de 2011 e 2012 e as duas últimas Supertaças. Ainda neste mês de janeiro irá disputar a Supertaça no arranque da época de lutas amadoras.



Foi também no início deste mês que começaram os treinos. Para todos os escalões. Para todos, reformulando. E é aqui, neste ponto, que a luta volta a estender-se do tapete para as ruas; não só as do Alto do Pina, mas as que vão fazendo a antiga freguesia de São João agora reformada na da Penha de França. No Musical, as lutas amadoras são factor de integração das pessoas do bairro (e vizinhos), a começar pelos mais novos de todos.

São cerca de 50 os atletas federados pelo Musical, além dos mais pequenos de todos que ainda não têm os 9 anos de idade. E não é por isso que deixam de fazer parte desta realidade. As inscrições são gratuitas e para se ser uma praticante de luta no Musical precisa-se apenas de ser sócio ou ter um familiar associado do clube.

A generalidade das restantes condições e despesas são asseguradas pelo clube; se bem que a comunidade não deixe de ter reciprocidade na partilha de tarefas logísticas quando a competição a isso leva. Mas o que se pretende esta lá: «a prática desportiva gratuita desde a formação», como explica ao Maisfutebol Fernando Alvega.

O Musical fornece aos seus lutadores o equipamento (maillots, botas, fatos de treino) – artigos que no seu conjunto rondarão os 100 euros. E quem recebe não deixa também de contribuir. «A ajuda dos pais dos atletas e de outros familiares tem sido muito importante», refere o vice-presidente para o desporto do clube explicando que esse apoio vai desde o cuidar dos equipamentos ao colocarem os carros à disposição quando há torneios – o Musical esteve presente em cerca de 20 provas do calendário de lutas amadoras de 2013.



O objectivo tem sido conseguido com a luta (e não se está a falar dos títulos dos seniores). «Sempre lutámos por ter modalidades para tirar os miúdos da rua», assume Fernando Alvega: «É um orgulho muito grande contribuirmos para que os jovens façam desporto como uma vertente social.» Este é também o centro do projeto «Mexe Comigo», um programa da Câmara Municipal de Lisboa para a inclusão social da população infanto-juvenil do concelho, a que o Musical está associado.

Este programa já foi premiado nos Emirados Árabes Unidos ganhando dimensão internacional e Fernando Alvega não se esquece de frisar que, como instituição integrante do sucesso do projecto «Mexe Comigo», o «Musical já é conhecido no Dubai». No Alto do Pina, «o entusiasmo existe desde os três anos» corporizado, como analisa Hugo Valadas, na prática de «uma actividade desportiva que para muitos é desconhecida».

O vice-presidente do Musical para a área financeira lembra a importância destes programas inclusivos em «bairros dentro de Lisboa com comportamentos desviantes complicados e baixas situações económicas». Por isso, já houve outras parcerias com a câmara municipal e a junta de freguesia – de quem o clube recebe os apoios financeiros – como está para começar o centro de apoio escolar do Clube Musical União – este numa parceria com a Santa Casa da Misericórdia.



O centro de apoio escolar – cujas inscrições já abriram e cujo início está agendado para março – consistirá em aulas gratuitas de apoio e acompanhamento às crianças dos 1º e 2º ciclos dadas por duas professoras voluntárias, com turmas de 10 a 12 alunos em períodos de duas horas bissemanais. Hugo Valadas destaca a motivação que dá ver que «as colectividades também têm o seu papel na cidade». Fernando Alvega repete o «orgulho» de ver «os jovens a virem estudar para dentro do clube».

O Musical também encarna o papel de promotor financeiro e um parque de skate no bairro Horizonte já é uma realidade, fruto do trabalho com a comissão de moradores local, num projecto inserido no programa da câmara BIP-ZIP (bairros e zonas de intervenção prioritária). «Recuperar espaços que estavam degradados» e «arborizar as zonas envolventes» são objectivos revelados por Hugo Valadas, assim como uma futura parceria com a Escola Secundária António Arroio. Como resultado destas sinergias ambiciona-se um campo de futebol e uma biblioteca.

Na festa de Natal, o clube ofereceu prendas às crianças até 12 anos filhas dos associados - estes são cerca de três centenas. Mas a realização de karaokes quinzenais pretende também, por exemplo, «reunir as famílias de toda a comunidade, sócios e não sócios». E o «vice» da área financeira salienta que, além de «juntar diferentes faixas etárias e famílias», «muita gente não teria acesso a diversões deste género» se não fossem também elas gratuitas.



As actividades do Musical apoiam-se num orçamento superando a centena de milhar de euros, que em 2013 resultou num balanço positivo acima dos sete mil. A começar está agora também um boletim informativo de periodicidade trimestral com uma tiragem prevista de 100 exemplares. Com informação do clube, informação local, cartas de leitores, etc., estas edições de 8 a 12 páginas serão, como explica Hugo Valadas, «uma revista do clube, mas não só», serão também uma revista «do bairro».

Quem não falhou o primeiro treino da época, só tem uma coisa a dizer: quanto mais disto, melhor. «É bom em todos os sentidos, para o espírito deles, para não enveredarem por outros caminhos», afirma Carlos Peres a respeito dos filhos Miguel (16 anos), Diogo (15 anos) e Leandro (13 anos). A mãe dos rapazes destaca estas «iniciativas que fazem os miúdos saírem da rua e juntam pessoas diferentes». Na mesma mesa está Sofia Ferreira, mãe do Fábio (de 5 anos) que pratica luta no Musical há um ano. As mães fizeram amizade há cerca de três meses.

Maria do Céu Pinto só pede «mais apoios» para «mais espaços» porque o Musical já está a tornar-se «pequeno». Fernando Alvega garante que o clube tem as «portas abertas» a todos, incluindo os que não são do bairro, mas o director do desporto também assinala que – até também por isso – já «há mais pedidos de pais de miúdos para os colocarem no Musical a praticar desporto do que é possível ter» devido ao «espaço reduzido».



Kevin Scholle é atleta e treinador – um dos três mestres – de lutas amadoras no Musical. Húngaro de nascimento, veio para Portugal em 2000 correspondendo à «aventura» de uma proposta de trabalho que lhe fizeram. Foi internacional pelo seu país – um dos vários que o Musical já teve como da Roménia ou da Guiné – e deixou a equipa olímpica húngara após uma lesão, em 1992. Já cá, através das redes sociais tomou conhecimento da modalidade no Musical e voltou à luta em 2011 participando na conquista dos títulos: Mas tendo também consciência do papel que desempenha para os mais novos.

«Para os miúdos do bairro somos ídolos, somos exemplos que querem seguir, diz Kevin Scholle destacando o «bom ambiente, a disciplina, o respeito» que as crianças apreendem, além de «ganharem amigos». O Diogo já o tinha confirmado antes. «Estou aqui para me divertir, para aprender. E também faço amigos», admitiu então. «Fazem coisas muito boas neste bairro» considera o atleta húngaro referindo que «isto também interessa aos pais» porque «isto também é uma escola».

Que o diga Rui Soares, o treinador principal do Musical. Com o antigo internacional português, do segundo treino da semana, saiu a sua filha, agora com 12 anos, mas que pratica a modalidade desde os 5. O pai e treinador explica como reagem as crianças em formação aos triunfos que o Musical tem conseguido nos últimos anos: «Os títulos têm um grande impacto no que respeita à competitividade e à objectividade. Ao assistirem às vitórias dos mais velhos, os miúdos ficam com a ambição de chegarem ao mesmo ponto.»

E. agora já morador «com grande orgulho« no mesmo bairro do Musical – desde que a reforma administrativa fez o seu trabalho – Rui Soares vaticina que estes miúdos que «estão agora a entrar» serão os próximos «filhos do clube».

Fonte: MaisFutebol
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