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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Entrevista a Alberto Covas

Entrevista a Alberto Covas

Ex-Lutador e ex-Treinador


Alberto Covas trocou o Tapete de Luta pelo Alcatrão do Atletismo. Mas nesta Nobre Modalidade, Covas foi um Lutador consagrado, tendo sido Campeão Regional, Nacional individual e colectivo pelas duas melhores equipas de Portugal, o Sporting e o Benfica. Com várias chamadas a Selecção Nacional, destaca-se o excelente 4º Lugar no Campeonato do Mundo de Veteranos em 1995. Como Treinador, apesar de ter treinado algumas equipas, foi o Grupo Desportivo e Recreativo de Portugal no Vale da Amoreira – Moita, onde, com um Projecto bem definido, consegue dar a Jovens “problemáticos” condições de treino, rigor e disciplina e os “afinou” como Campeões e Homens/Mulheres com futuro. Depois de muito sucesso acumulado nas diversas disciplina das Lutas Olímpicas, abandonou de um dia para o outro. As Lutas sentem a sua falta, mas para o seu regresso, terão que percorrer um longo caminho. Conheça o percurso de Alberto Covas nas Lutas Olímpicas.

Mundo da Luta Olímpica – Como e onde iniciou a modalidade? O que o levou a optar pela modalidade?
Alberto Covas –
Iniciei a modalidade no Sporting Clube de Portugal em 1975 a convite de uma amigo. Gostei da modalidade porque, a dinâmica, competência e eficácia que um lutador têm que ter para ganhar o seu espaço e o respeito dos seus adversários.


MLO – Descreva um pouco a sua carreira como Wrestler.
AC –
De 1975 a 1982 estive integrado na Formação do Sporting CP, onde obtive títulos como Campeão Nacional de Juniores, Esperanças e de Seniores, com apenas 18 anos integrei a Selecção Nacional com a Selecção da Tunísia.
Em 1983, fui para o Sport Lisboa e Benfica, aonde também fui Campeão Nacional, cheguei a ser Capitão de Equipa. Também foi Treinador, além de continuar como Atleta da Selecção Nacional até aos 35 anos.
Em 1994 assumi um projecto no Grupo Desportivo e Recreativo de Portugal como Treinador e Atleta, na área aonde me sentia como peixe na água, com poucos recursos materiais, mas com elevados recursos humanos. Deu-me grande gozo fazer dos meninos do Vale da Amoreira – Moita, Homens e Mulheres, Lutadores e Lutadoras de 1ª água. Agradeço desde já, as alegrias que me deram, tanto a nível Regional, Nacional e até Internacional e isto só foi possível com o apoio da direcção do clube.
Entre 2000 a 2004 fui Treinador do União Desportivo e Cultural Banheirense, Baixa da Banheira – Moita, que sem sombra de dúvidas, veio mexer com o panorama competitivo a nível regional, nacional e internacional, já que os atletas que tive prazer de os treinar deram-me muitas alegrias através dos Títulos Individuais, Colectivos e chamadas á Selecção Nacional em vários escalões, tanto no masculino como no feminino. Quero agradecer a ajuda de dois Treinadores Adjuntos que me ajudaram neste meu último Projecto Desportivo, sem eles não teria metade do êxito obtido, a Nelson Covas e a Telma Covas e á Direcção do Clube.

MLO – Quais foram os seus desempenhos relevantes como Wrestler?
AC – Os Títulos Individuais Regionais, Nacionais e Internacionais, os Títulos por Equipas como as Taças de Portugal e os Campeonatos Nacionais ganhos tanto pelo Sporting CP como pelo SL Benfica.
Ainda venci um Campeonato Nacional pelo SL Benfica, quando estava como Treinador/Atleta.
Como Lutador Internacional destaco o Torneio Objectivo dos Jogos Olímpicos de 92, concretizado na Cidade Espanhola – Barcelona no ano 1989, ganhei a Medalha de Ouro na Categoria 62kg, contra o Espanhol, Carlos Fernandes, que na época anterior tinha participado nos Jogos Olímpicos Seul 1988.

MLO – Foi o primeiro a participar no Campeonato do Mundo de Luta Greco Romana de Veteranos. Conte como foi a sua participação, desde o início.
AC – Foi um Campeonato do Mundo muito bem organizado em Sofia capital da Bulgária em 1995, era eu na altura Treinador no GDR Portugal. Realizei 3 combates, onde perdi com um Turco por diferença pontual máxima (12-0), venci a um Búlgaro aos pontos (3-1). Fiquei em 2º lugar na Série e fui disputar o combate para 3º e 4º lugar na cat.65kg que foi muito bem disputado e viril contra outro Lutador Búlgaro e digo-vos foi um combate de 5 minutos muito viril ao ponto de os Árbitros ficarem admirados com tanta intensidade e as marcas que ficamos no corpo, no fim do combate que o meu adversário muito justamente ganhou 1-7. Resultado final um 4º lugar muito honroso para mim e para Portugal, que representei o melhor que sabia e podia. Com este relato histórico, contribuiu para a verdade dos factos desportivos deste Mundial, já que no livro da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras nas efemérides competitivas vem registado um 6º lugar e isso não é verdade.

MLO – Acha que mais algum Wrestler Português irá participar nessa prova?
AC – Acho não e tenho a certeza. O Ernesto Rodrigues participou no Mundial seguinte e conseguiu um brilhante 6º lugar.

MLO – Ainda se lembra do Torneio de Despedida de Alberto Covas como Wrestler? O que sentiu no último combate?
AC – Sim recordou muito bem, travei um combate muito bom com o Luís Martins no Campeonato Nacional de Livre Olímpica Individual para o Título em disputa mas, com 42 anos já estava fora de prazo e saí como vice-campeão. O meu amigo Luís Martins foi um justo vencedor, senti que fiz a minha obrigação como atleta em todas as vertentes desportivas e competitivas.

MLO – Que cargos desempenhou nas Lutas?
AC – Além de Atleta, fui Treinador e Director Técnico Regional de Setúbal.

MLO – Como estava Setúbal quando foi Director Técnico Regional? Quando saiu como ficou?
AC – Praticamente não existia, não havia Direcção e Clubes só um e não estava inscrito para competir. Nesse caso coloquei “mãos à obra”. Com muitos contactos e reuniões, com gente interessada em fazer um trabalho a sério, consegui Treinadores para Clubes interessados na Luta. Após esses contactos e através dos Clubes, conseguiu-se Dirigentes para formar uma Direcção Associativa, para cimentar mais a Associação de Lutas Amadoras de Setúbal conseguimos uma Sede Própria, já que estava-mos em casa emprestada e para completar a autonomia foi comprada uma viatura. No meio disto tudo a Nível Competitivo chegou-se aos 8 Clubes com muitos Atletas, bons Treinadores e bons Dirigentes e com Calendário Regional próprio e até árbitros tinha-mos para sustentar os Torneios em causa, no meio disto, eu era um organizador convergente de ideias que se passava para a prática aquilo que se discutia em reuniões democraticamente.
Foi uma aposta ganha pela FPLA mas...eis que outros valores se levantaram e começou o “principio do fim” da estabilidade da ALAS e eu saí de cena. Jogada Errada, os competentes e eficazes incomodam os incompetentes e ineficazes.

MLO – Como treinador, quais foram os clubes que treinou? Já agora os Wrestlers que destaca.
AC – Como Treinador a minha 1ª experiência foi orientar 5 Jovens Atletas do Sporting CP num Torneio Internacional em Monte Gordo organizado pelo Beira Mar de Monte Gordo em 1982, já que o meu Treinador, o Luís Grilo não tinha disponibilidade e pediu-me para o substituir neste evento, e não é que me estreei bem, um dos Atletas ganhou a Categoria e a respectiva Taça de 1º lugar.
Mas, a 1ª experiência como Treinador num Clube orientado por mim foi no Lisboa Clube Rio de Janeiro, em 1983 ou 84, não tenho a certeza.
Em 1991 fui convidado para treinar o SL Benfica e nessa condição de Treinador ganhei o Campeonato Nacional de Equipas desse mesmo ano com uma excelente equipa, aos visados o meu muito obrigado sem eles não teria êxito.
Em 93/94 assumi o GDR Portugal até à Época 98/99. Em 2000 assumi o UDC Banheirense até 2004. Lutadores da qual era admirador: Joaquim Vieira e Luís Grilo ambos do Sporting CP e Olímpicos. Haveria muitos mais que admiro, mas, a lista seria longa desde dos da minha geração e as seguintes, mas, há um atleta por tudo o que representava para mim, não posso deixar de prestar-lhe uma Homenagem Póstuma ao meu saudoso amigo, Fernando Gaspar. Deus o tenha em descanso e muito obrigado pela convivência que me proporcionaste, de muita alegria, na Luta.

MLO – Qual foi o Clube que mais gostou de treinar? E Porque?
AC – Sem tirar o valor aos outros Clubes que eu treinei com muito orgulho e alguma eficácia, mas o GDR Portugal foi o projecto que me deu mais prazer. Não porque o Clube tivesse grandes condições materiais, mas porque aqueles meninos(as) eram diamantes em bruto que foram burilados por mim e que foi pena não ter concretizado o projecto até ao fim, estes atletas eram como filhos para mim.
Para que conste agora e no futuro, foi um prazer ter participado no vosso crescimento e obrigado por me terem recheado de alegrias competitivas e desportivas, que ficaram na minha memória para sempre.
Os medíocres importam-se mais com o sucesso dos outros do que o fracasso deles próprios e gastam o tempo todo a tentar estragar o trabalho válido dos outros só por, pura inveja.

MLO – No seu último percurso como Treinador, muitos se lembram das “picardias” com o seu compatriota Fernando Carreira, no Campeonato Distrital de Setúbal por Equipas. No seu ver a Luta estava melhor do que actualmente?
AC – Para que conste, o Fernando Carreira foi meu adversário, como Atleta, Treinador e companheiro de Equipa no SL Benfica (atleta) e acima de tudo somos grandes Amigos. O grande problema da sociedade em que vivemos, é que os incompetentes não gostam de trabalhar e então quando estão obrigados a isso fazem tudo e mais alguma coisa para estragarem o bom trabalho que os outros fazem e mais grave ainda os que mandam acreditam em tudo o que lhes contam sem confirmar, depois pedem desculpa quando já não há remédio para o mal já feito.
Em relação às comparações, não as posso fazer porque estou de fora e não acompanho. Porque infelizmente há mais quem diga mal do que, quem queira fazer algo de bom. Tomara a Luta ter muitos Treinadores com a capacidade treino, motivação, organização e muitas vezes sem conta meter dinheiro do próprio bolso, para suprir falhas de vária ordem e só estes dois treinadores em competição punham os outros em sentido, desportivamente falando, digo eu com os nervos que sou muito nervoso ou não.
Já agora deixo uma questão, a quem é que interessou a minha saída de cena da Luta? Façam um esforço que adivinham.

"Deu-me grande gozo fazer dos meninos do Vale da Amoreira – Moita, Homens e Mulheres, Lutadores e Lutadoras de 1ª água."

MLO – Que alegrias e desilusões lhe deu a Luta?
AC – Tive mais alegrias que tristezas, por simples facto de as fazer por prazer, tanto a treinar como a dar treino.

MLO – Quer elucidar os leitores desta Entrevista, sobre o seu conflito com a Federação Portuguesa de Lutas Amadoras? Porque abandonou as Lutas?
AC – A Luta precisa de tentar resolver os problemas de falta de Treinadores para dar dimensão, quantidade e qualidade visível aos Média como fez e faz muito bem o Judo. E deixar os conflitos só para os resolver e nunca para os prolongar no tempo, quem é do meio sabe o que se passou e os meus motivos e sabem qual a fórmula para o meu regresso é só darem 1º passo, o resto fica para a competência dos Dirigentes, Treinadores e Atletas, os que interessam no meio de isto tudo.

MLO – O que é preciso para Alberto Covas voltar para a Família da Luta?
AC – Bom senso à FPLA para resolver o assunto em questão. Mas se não se mexeram até agora também não acredito que o façam alguma vez, porque ao que parece os que apresentam trabalho realizado e tem ideias próprias, atrapalham. Se fosse Secretário Geral ou Director Técnico Nacional quereria estar rodeado dos melhores Técnicos para ter melhores Clubes, os melhores Atletas, para que houvesse uma base de recrutamento maior e melhor para as diversas Selecções Masculinas e Femininas e assim poder projectar a Luta para o lugar que merece. Mas parece-me que existe alguém que não está interessado em que haja não mais que 15 a 20 Clubes e sendo assim é inglório o esforço de alguns e quem perde é a modalidade por não haver competência para uma política de recrutamento de tanto Treinador que existe mas, que estão de fora por as razões apresentadas nesta narrativa, será que é assim tão difícil de fazer o óbvio?

MLO – O que sente mais falta?
AC – Dos meus atletas, do frenesim da Competição e toda a envolvência inerente ao panorama da Luta.

MLO – Trocou os Tapetes pelo Alcatrão, qual a maior diferença entre estas duas antigas modalidade?
AC – É que uma (Luta) é mais técnica e mais exigente em competição, o Atletismo tem mais a ver para mim como um motivo de lazer e manter-me ocupado semi-competitivo, o que não quer dizer que esta modalidade não seja exigente como as demais.

MLO – A Luta é um desporto pouco divulgado a nível nacional, porque é que isso acontece?
AC – Porque uma das razões é termos poucos Atletas bons, para bons combates e Clubes de nomeada como já houve, o Sporting CP e o SL Benfica e outros como o Grupo Desportivo de Runa que davam dimensão Competitiva Regional, Nacional e também Internacional. Sem espectáculo competitivo não há interesse dos média, logo aí não existe divulgação, a não ser aquele programa na RTP2 contratualizado pela FPLA, o que, diga-se em abono da verdade, que é muito pouco á necessidade da nossa modalidade. Será que é tão difícil transportar para a Luta, o Modelo Desportivo e Orgânico da Federação Portuguesa de Judo, que tão bons resultados dão, ou isso dá muito trabalho?

MLO – O que deve melhorar na Luta?
AC – Acima de tudo convergência de esforços por igual, porque enquanto a fórmula for, “eu é que sei e eu é que mando”, não vão a lado nenhum. Porque um projecto para ir para a frente tem que ser aglutinador de ideias, para que todos se sintam parte integrante do mesmo.
E já agora quem foi o inteligente que retirou a competitividade aos escalões mais baixos da formação? Acham que é assim que os miúdos têm motivação para continuar na Luta? Eu na minha modesta opinião acho que não.
Eis algumas ideias construtivas de quem está de fora e que por muito que queira não consegue alhear-se desta modalidade, porque estão sempre de volta de mim como se eu fosse o remédio para a cura de todos os males! Ou estão interessados que eu regresse para que seja o alvo das atenções da FPLA?

MLO – Que acha do projecto do Blog Mundo da Luta Olímpica?
AC – Acho bom, por um simples facto, dá voz a todos os que querem repartir as suas ideias em público em prol do bem desportivo e não só.

MLO – Partilhe connosco uma história desta modalidade que a tenha marcado.
AC – A união de esforços e objectivos de dois Clubes, de dois Treinadores e de 16 Atletas, falo do Grupo Desportivo e Cultural do Conde2 e o UDC Banheirense, para participar no Torneio Internacional Guadalajara, arredores de MADRID.
Esse entendimento entre Treinadores de grandes amizades e com os mesmos objectivos, deu este resultado final, um maravilhoso 2ºlugar da Geral, entre mais de 20 Clubes Espanhóis e muitas medalhas de 1º, 2º e 3º. Mas, o que conta aqui, é a inteligência do Treinador Fernando Carreira ao convidar um Clube, que sabia de antemão, que tinha bons Atletas para o objectivo a que nos propuseram. E eis aqui um episódio de boa união de esforços entre dois Clubes que a nível interno eram adversários que davam tudo o que tinham treinado durante a semana para na competição não darem hipótese aos adversários. Eis aqui um bom exemplo de que ser um bom adversário não é sinónimo de inimigo, como alguns gostariam que fosse e esta hein?!

MLO – Que última mensagem gostaria de deixar aos leitores desta entrevista?
AC – Nunca deixem de dar a vossa opinião e questionar aquilo que não compreendem, porque o que não dá opinião e não questiona o que não entende, não ajuda a sociedade a crescer seja em que área for, Pública, Privada, etc.

Obrigado Alberto Covas pelo tempo disponibilizado e por ter respondido a estas perguntas de um modo aberto e sincero.


Mundo da Luta Olímpica
João Vitor Costa
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