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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Entrevista a Orlando Gonçalves

Entrevista a Orlando Gonçalves

Mais de cinco décadas de Lutas



Nesta 10ª Entrevista, quisemos marcar pela marca que esta poderá deixar no seio do Mundo da Luta Olímpica. Todas estas afirmações foram comprovadas por documentos válidos que não podemos menosprezar, assim consideramos que foi uma óptima aposta e que clarifica alguns males entendidos de surgem no ar. Com mais de meio século de ligação à modalidade, nos mais diversos cargos adjacentes, Orlando Gonçalves deu-nos o privilégio de o Entrevistarmos, onde descobrimos que é uma Jóia viva das Lutas Olímpicas. Este membro da Família da Luta é titular de vários Títulos Nacionais e Internacionais, participou em Campeonatos da Europa, do Mundo e em duas edições nos Jogos Olímpicos, ainda praticou na Alemanha, como Treinador administrou bons Clubes e criou bons Wrestlers e na vertente de Dirigente foi o 1º Director Técnico Nacional da Federação e foi Presidente da Direcção da Associação de Lisboa. Para conhecer mais sobre esta figura, nada melhor que ler esta Entrevista.


Mundo da Luta Olímpica – Como e onde iniciou a modalidade? O que o levou a optar pela modalidade?
Orlando Gonçalves – Foi pela mão do meu único irmão, Gentil Gonçalves, já com algum tempo de prática de Luta, coisa que não se sabia lá por casa, que me levou a visitar no ano de 54/55 a secção de Luta do Sport Lisboa e Benfica na antiga sede sita na Rua Jardim do Regedor. Aí, comecei a dar os meus primeiros passos como aprendiz de lutador. Depois do primeiro Torneio em que participei em 1956, jamais tinha imaginado ter começado um percurso desportivo que já conta com 55 anos de actividades consecutivas no âmbito das várias vertentes técnicas inerentes à prática das Luta.

MLO – Descreva um pouco a sua carreira como Wrestler.
OG – A minha longa permanência na modalidade como atleta sempre se pautou pelo prazer da competição, independentemente do sabor da vitória ou da derrota, da camaradagem e amizades que o desporto sempre proporciona.

MLO – Descreva o seu Palmares com Wrestler?
OG – No meu currículo como lutador consta o seguinte: foi Campeão Nacional em 14 ocasiões, competi em dois Países, em Portugal e na Alemanha, fiz parte de todos os Seleccionados Nacionais entre 1958 a 1965 e orgulho-me de ter participado em dois Jogos Olímpicos, o de Roma em 1960 e o de Munique em 1972, com a classificação de 14º entre 28 lutadores e de 19º entre 32 lutadores, respectivamente. Participei ainda em Campeonatos da Europa e do Mundo.

MLO – Esteve na Alemanha e passou por Clubes com a nossa modalidade. Quais as grandes diferenças em relação ao nosso meio?
OG – Começando pelo nível de vida, organização, logísticas, horários, formação, educação e mentalidades. Posso afirmar que estamos à distância de muitos anos!
No âmbito desportivo e no que concerne à nossa modalidade a diferença é somente esta:
Com a unificação da Alemanha passaram de 15 para 18 Associações Regionais, onde passaram a existir cerca de 400 clubes distribuídos pela a 1ª e 2ª Liga Nacional – Campeonatos de Equipas com visitas recíprocas, subidas e descidas de divisões (Setembro/Dezembro).
Existe também outras ligas de nível mais regional, normalmente mais 8 equipas e a estrutura é em tudo semelhante ao futebol para todas as ligas.
Em termos individuais organizam-se: Campeonatos Concelhios, Distritais e Regionais que por vezes comportam 20 ou mais lutadores por categoria e escalão.

MLO – Como é combater na Bundesligue?
OG – Quanto à pergunta que fazes se é difícil lutar na Bundesliga, penso que, como anteriormente tentei esclarecer em traços muito reduzidos deve dar uma ideia que não há comparação possível. Na Bundesliga militam lutadores do mais alto nível não havendo por isso adversários fáceis! Quanto à minha performance naquele País posso afirmar que foi altamente positiva não só pelos resultados obtidos como lutador, treinador e na formação desportiva.
Deixo-vos um apanhado de resultados individuais na Liga Hessen (Liga Superior da Associação de Hessen):
Em 1966 obtive um 6º lugar no Campeonato Distrital e um 9º no Regional, ambos com 15 participantes. No ano seguinte os resultados foram diferentes, 1º lugar no Distrital e 4º no Regional, com 15 e 17 participantes, respectivamente.
Em Setembro de 1966, foi o meu baptismo de fogo no Campeonato de Equipas na Oberliga, com 9 equipas ocupamos o 2º lugar na classificação.
Até 1975 os resultados por equipas e já como treinador, foram os seguintes:
1967 – Campeões Regionais em 10 Equipas e tentativa de subida à Bundesliga;
1968 – Campeões Regionais em 10 Equipas e conseguimos a subida à 1ª Bundesliga;
1969 – A classificação na Busdesliga foi 7º lugar, entretanto face aos elevados custos na Bundesliga, foi necessário optar pela descida;
1970 – Classificação na 2ª Bundesliga entre 8 equipas foi o 3º lugar;
1973 – De novo na Oberliga – classificação entre 9 equipas foi o 2º lugar;
1974 – Campeões Regionais da Liga de Hessen entre 8 equipas (dada a anterior experiência na 1ª Bundesliga optou-se pela permanência na mesma divisão), a equipa de reservas também se sagraram campeões na sua divisão.
Uma das coisas impensáveis em Portugal e que, na subida de divisão ou para apuramento de campeões, cada pavilhão poderia ultrapassar os 5000 espectadores! Outra é que os árbitros são pagos pelos clubes no final dos encontros com as verbas pagas pelos espectadores.

MLO – Que cargos desempenhou na Luta?
OG – Tive o privilégio, a honra e o orgulho de desempenhar outros cargos tais como: Director Técnico Nacional de 1976 a 1983 e posteriormente de 1985 a 1989, Treinador das Selecções Nacionais e Prelector da Formação da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras nos mesmos períodos de tempo, Coordenador do Departamento de Organização de Eventos e Planificação de Actividades em 1989 até 1997, actividade como Árbitro e Presidente da Direcção da Associação de Lutas Amadoras de Lisboa em 2004/2008 e treinador como respondi na pergunta anterior.

MLO – Como treinador, quais foram os clubes que treinou? Já agora quais os seus Wrestlers que destaca.
OG – A minha experiência como treinador começou em 1963 no Clube Atlético de Alvalade e em simultâneo treinava também o Grupo Desportivo de Runa. Na Alemanha treinei o T.S.V. Gailbach – 1967/1975 e de regresso a Portugal em 1976 treinei o Ateneu Comercial de Lisboa, o Sport Lisboa e Benfica, o Grupo Desportivo de Runa, o Clube Desportivo e Recreativo de Portugal e nos últimos tempos tenho colaborado na vertente técnica com as pessoas que ainda me acham com suficiente capacidade técnica, física e mental. No que concerne a lutadores posso adiantar que dos atletas que treinei alguns atingiram boas performances: Luís Manuel Pereira Grilo e António Luís Margaça Galantinho, ambos Olímpicos e com combates ganhos nesses enormes certames, saíram da minha direcção técnica com vastas capacidades. Paulo Gonçalves, também começou a ser fabricado na minha oficina e tive o privilégio de durante alguns meses ter treinado outros lutadores que se destacaram.

MLO – Neste momento está a co-administrar treinos do Clube Musical União do Rui Soares. O que esta a achar desta nova etapa?
OG – Que há pessoas que sabem que apesar dos meus jovens 72 anos de idade, ainda posso ser útil à Luta e no desenvolvimento dos seus projectos, nomeadamente na importante vertente técnica.

MLO – Da sua experiência que aptidões terá que ter um futuro “mestre”?
OG – Terá que ter largos anos de prática desportiva da modalidade de forma a assimilar, frequentar Acções de Formação de qualidade e reciclagens técnicas, ter tido a sorte de ter treinadores de qualidade enquanto praticante. Porque não chega ter um diploma atribuído num Curso de Treinadores de 3 ou 4 Fins-de-semana é necessário ser um razoável executante para transmitir as técnicas com qualidade e ter em consideração os pormenores, deve adquirir conhecimentos sobre metodologia de treino, deve ter um mínimo de conhecimentos de planificação e acima de tudo deve ter interesse por aprender com os mais aptos, muita dedicação e ler algumas coisas sobre preparação básica dos atletas.

MLO – O que tem a dizer como ex-Seleccionador Nacional? Como está a funcionar as nossas Selecções?
OG – Como já fiz sentir, no meu tempo não existiam as mesmas condições de trabalho como actualmente, por isso as coisas eram diferentes e só era possível treinar três vezes por semana.
A minha opinião foi sempre a seguinte, primeiro temos de ter a matéria humana em quantidade e qualidade, depois, comparo que todos os atletas sem excepção, deveriam ter equipas técnicas à sua volta idênticas às equipas das corridas da Formula 1, assim ter os apoios necessários para que possam de facto dar o seu melhor, o que não acontece na nossa modalidade para não falar de grotescas e grosseiras intervenções de medíocres de quem nunca foi atleta, de quem nunca tenha treinado num clube, de quem nunca foi lutador e de quem nunca tenha perdido um gota de suor para perder peso!
Como estão a funcionar as nossas selecções? Há muito que já deixaram de funcionar!

MLO – Foi o primeiro Director Técnico Nacional, como chegou a esse cargo e o que fez de notável?
OG – Em 1976, foi feita uma proposta à FPLA pela ex-Direcção Geral dos Desportos, para que eu assumisse o respectivo cargo com os seguintes objectivos: Coordenar as Actividades da FPLA, Treinar as Selecções, Desenvolver e Planificar Acções de Formação, Apoiar nas Actividades do Plano de Desenvolvimento de Lutas Amadoras (desporto de massificação a nível nacional) da DGD e Servir de elo de Ligação entre as duas entidades – este cargo não existia antes!
Não foi uma tarefa deveras facilitada por motivos de várias ordens tais como: invejas pelo cargo, costumes enraizados e aversão a mudanças, falta de meios técnicos administrativos, humanos, logísticos, materiais desportivos e insuficiência de verbas.
Apesar de todas as carências e dificuldades conseguiu-se o seguinte: terminar com a participação de lutadores que não se encontravam inscritos pois foram abolidas as pesagens com o B.I ou passes escolares, foi extremamente difícil introduzir um novo cartão de lutador, terminar com as declarações médicas rasuradas e viciadas e deixar de lutar de pé descalço.
A planificação de eventos passou a ter outra dinâmica e posteriormente os Campeonatos Nacionais passaram a ser organizados na mesma data, embora com reconhecidas dificuldades, foram sempre sendo organizados.
Criaram-se Competições Individuais e de Equipas para os Escalões de Infantis com o acordo de todos os treinadores, Campeonatos Regionais, Nacionais e Taça de Portugal, aliás, também para os outros escalões.
As idades dos escalões etários foram alteradas no sentido de não se verificarem Vencedores Sem Competidores, sem prejuízo para os respectivos praticantes e criaram-se diferentes grupos etários para aos torneios com o mesmo objectivo.
Com frequência deslocava-me aos pontos geográficos onde existiam Clubes e Núcleos da DGD e ali ministrava Estágios Técnicos para Treinadores e de aperfeiçoamento para atletas, às vezes por oito dias. A descentralização também foi uma importante vertente pois foram realizados eventos regionais, nacionais e internacionais em várias regiões.
Aproveitava os Protocolos da DGD com vários países, no sentido de participarmos nas Acções de Formação aquando da vinda de Técnicos Estrangeiros de elevado nível tais como: Romenos, Búlgaros, Russos e especial o DTN e Treinador Alemão Heinz Hostermann, que veio a Portugal pela ligação que tinha comigo.
Mas o mais notável para mim como DTN, foi de ter sido o primeiro DTN e que vestia a sério o fato de trabalho, ter sido o que teve uma directa e substancial intervenção no crescimento da modalidade e na sua qualidade, como por exemplo, quando iniciei havia 8 clubes e deixei em 1983 com 37, número nunca mais alcançado, ter tido o prazer de trabalhar no terreno numa constante, ter sido em tudo diferente dos outros seis que me procederam. Naturalmente nada teria conseguido sozinho, tive o acordo de vários Presidentes e Directores da Federação, dos Clubes, Treinadores e principalmente dos que queriam que a modalidade fosse em frente.


Só uma mudança radical de pessoas e começar tudo de novo é talvez a única hipótese!”


MLO – Então o que se passa com os clubes da modalidade? Porque não encontra estabilidade da secção ou núcleo de Luta?
OG – Se tiveres oportunidade de dar uma leitura um pouco mais concentrada nos documentos: “Luta Olímpica em Portugal”, no que recentemente escrevi para o Blog “Mundo da Luta Olímpica” e para o que julgo que entreguei ao pessoal faz uns meses, encontras muitas respostas à tua pergunta.
Mas acrescento mais algumas, falta de informação e formação desportiva duma grande percentagem do povo português. (Quantos clubes já surgiram desde que se transmite a luta na TV?). Como podem os clubes suportar secções que só dão despesas? Quais as capacidades e dinâmicas que foram aplicadas ao longo dos anos? Quantos treinadores é que actualmente querem perder tempo sem contra-partidas? Quantos clubes terão logística em condições para práticas desportivas como a Luta? Porque não se paga uma taxa ou mensalidade como em todas as outras modalidades? A luta terá de ser sempre o desporto dos coitadinhos?
Para terminar: Cada individuo normal e são, pode praticar qualquer desporto contemporâneo.
Todavia, cada desportista não pode ser recordista ou campeão.
Cada individuo normal e são, pode ser lutador, treinador, árbitro, dirigente ou até desempenhar outras funções na área das práticas desportivas.
Todavia, nem todos os que as exercem ou pretendam exercer essas actividades, tem apetência, formação, intuição ou vocação para desempenhar tais cargos.
Shakespeare disse: Ser ou não ser, eis a questão
É a chave do provável êxito ou da vitória, não se pode parecer, tem mesmo de se ser.

MLO – A Luta é um desporto pouco divulgado a nível nacional, porque é que isso acontece?
OG – Em anos já distantes a modalidade tinha um certo apoio dos Órgãos de Comunicação Social porque era uma modalidade bem vista e tinha alguns indivíduos que acompanhavam e faziam reportagens da Luta.
Com o passar dos tempos a ditadura do Futebol tomou conta de tudo, o que, aliado à falta de imaginação dos responsáveis, a Luta está novamente numa fase agonizante tal como se encontrava em 1954.

MLO – O que deve melhorar na Luta?
OG – Da forma que as coisas se encontram, penso que muito dificilmente se pode melhorar o actual panorama. Perderam-se todos os valores!
Só uma mudança radical de pessoas e começar tudo de novo é talvez a única hipótese!

MLO – Recentemente lançou um artigo o “Lutas Olímpicas – O Futuro do Desporto”, o que quer transmitir.
OG – Como deves compreender a nossa modalidade está cheia de gente inteligente, nomeadamente alguns ocupam os cargos importantes e de decisão, achas que iam dar importância a documentos elaborados por uma pessoa que não tem passado desportivo na modalidade? (E o burro sou eu?) Tudo o que já fiz ou faço, seja em actividades no terreno ou em documentos, servem para informar, chamar atenção dos mais distraídos, esclarecer algumas situações e dar a conhecer que existem alternativas.

MLO – Está a colaborar e a ser mais activo com o Blog “Mundo da Luta Olímpica”, quer dizer o que está a transmitir?
OG – A minha colaboração com o “Mundo da Luta Olímpica”, é e vai ser, se assim o entenderem, neste sentido de contar algumas histórias e situações desconhecidas dos mais jovens e do pessoal em geral.

MLO – Que acha do projecto do Blog “Mundo da Luta Olímpica”?
OG – Penso ser um meio útil para a divulgação da modalidade. No entanto, para que o Blog tenha ainda melhor qualidade e credibilidade, torna-se necessário que as pessoas tenham um certo equilíbrio no que declaram e escrevem em Artigos e Entrevista, devem servir o Blog e a Luta e não servir-se do Blog e da Luta para se tornarem notáveis.
Julgo que também seria determinantes as pessoas apresentarem mais ideias, soluções ou criticas sobre a modalidade e seus responsáveis, juntarmo-nos todos. É apenas um desafio!

MLO – É conhecido pelo seu temperamento e frontalidade, nesta pergunta exprima o que vai na sua alma referente às Lutas Olímpicas Nacionais.
OG – Já vai para trinta anos que alguém dentro da modalidade deu inicio a uma” guerra pessoal “contra o Orlando Gonçalves, a qual tem tido os seus efeitos colaterais para a Luta, nunca percebi porquê! Talvez por pôr os interesses da modalidade à frente dos meus? Ou por não gostar de oportunistas, mercenários, de hipócritas, dos “diz que disse” e dos que espetam facas nas costas?
Não foi por acaso que me demiti 2 vezes do cargo de DTN e sempre que regressei foi a pensar que as coisas seriam diferentes, mas fui forçado à terceira demissão por motivos óbvios!

MLO – Partilhe connosco uma história desta modalidade que a tenha marcado.
OG – São muitas, algumas mais interessantes, outras muito negativas como por exemplo o das Eleições de 1984, em que o processo e actos acontecidos nas Assembleias decorreram sob situações mafiosas, de pouca lisura com efeitos tão colaterais que se repercutem ainda hoje e que marcaram para sempre o futuro da modalidade.

MLO – Que última mensagem gostaria de deixar aos leitores desta entrevista?
OG – Espero que gostem, que se sintam elucidados de alguns pormenores desta modalidade e que tentem a mudança, façam algo para as Lutas. Depois que as Lutas têm sido uma fraude nos últimos 20 anos! Que me sinto frustrado depois de 55 anos de amadorismo, sinto-me enganado, sinto-me triste pela modalidade. Mas acima de tudo, sinto que a modalidade foi invadida por incompetentes, que as pessoas passam por cima de tudo e de todos para atingirem aquilo que querem, assim vamos muito mal. Um bem-haja!


Obrigado Orlando Gonçalves pelo tempo disponibilizado e por ter respondido a estas perguntas de um modo aberto e sincero.

Mundo da Luta Olímpica
João Vitor Costa
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