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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ENTREVISTA - Pedro Silva

O Blog "Mundo da Luta Olímpica" em conjuntamente com a Revista Desportiva "O Praticante", irá apartir deste momento fazer entrevista aos vários Recursos Humanos das Lutas Nacionais.
O nosso primeiro entrevistado é o Director Técnico Nacional da FPLA, Pedro Silva, onde respondeu às perguntas de forma directa e sincera.
Boa leitura!!!



Como iniciou a modalidade? O que o levou a optar pela modalidade?
O meu começo na Luta é pouco comum. Nunca tinha visto Luta ao vivo, não conhecia pessoalmente ninguém que praticasse a modalidade e não havia nenhum clube com Luta perto da zona onde morava. Para além disso, praticava desde os 5 anos uma outra modalidade num clube que ficava a menos de 100 metros da minha casa. Ainda assim, e com todo o apoio dos meus pais, tive a possibilidade de concretizar o meu desejo de começar a praticar uma modalidade que me cativava bastante através das poucas transmissões televisivas que conseguia ver, mas também pela dimensão histórica que tinha e pela sua profunda relação com os Jogos Olímpicos e com os ideais olímpicos. E aqui eventualmente os Jogos Olímpicos de Los Angeles terão desempenhado um papel decisivo no timing desta escolha.

Onde iniciou a modalidade?
Iniciei a prática da Luta no Sporting Clube de Portugal, clube onde aliás tive a felicidade de fazer toda a minha carreira como atleta.

Há algum treinador que o tenha marcado particularmente?
Durante toda a minha carreira tive apenas dois Mestres, Luís Grilo no Sporting e Atanas Ivanov na Selecção Nacional. Isto não obstante ter sido pontualmente treinado por outras pessoas em circunstâncias esporádicas. Das duas pessoas que referi, o Mestre Luís Grilo teve, pelo seu exemplo e ensinamentos, um papel determinante não só na minha evolução como lutador, mas principalmente no amor que sinto pela modalidade.

Que títulos obteve?
Como atleta fui Campeão Nacional individual 7 vezes, fui internacional umas largas dezenas de vezes, Campeonatos da Europa e do Mundo incluídos, e serei dos poucos portugueses com vitórias em combate em Campeonatos do Mundo de Seniores, mas guardo como principal marco da minha carreira o nunca ter tido qualquer punição disciplinar enquanto atleta, treinador, árbitro ou dirigente.

Que cargos desempenhou na Luta?
Tive a honra, o prazer, o privilégio e a responsabilidade de desempenhar os mais variados cargos na modalidade. Como referi anteriormente, comecei como atleta no Sporting e desde aí fui árbitro, treinador, Presidente da Direcção e da Assembleia Geral de uma associação distrital e neste momento exerço as funções de Director Técnico Nacional.

É licenciado em Educação Física e Desporto e mestre em Psicologia do Desporto. Que objectivo teve na sua carreira académica e o que pretende retirar dela?
Os meus objectivos académicos foram e são de formação pessoal. São resultado da necessidade de possuir as ferramentas necessárias a poder desempenhar, no máximo das minhas capacidades, a profissão que escolhi e abracei.

Os seus estudos trouxeram algo de novo à modalidade?
A formação dos recursos humanos ligados a qualquer entidade, seja ela uma federação, um clube ou uma empresa, reflecte-se necessariamente na sua capacidade de intervenção. Nesta medida estou convicto que a minha formação académica, mas também a minha experiência desportiva e profissional foram e são postas ao serviço da FPLA e da modalidade, trazendo alguma inovação positiva e também uma clara consistência nas políticas de desenvolvimento desportivo.

Que futuro prevê para a Luta?
Não querendo fazer futurologia, tenho a certeza que o futuro da modalidade será o que os seus agentes quiserem. Dito isto sinto-me muito confiante no futuro da Luta. Penso convictamente que a família da Luta conseguirá continuar a promover o crescimento e desenvolvimento da modalidade, não obstante as circunstâncias económicas e sociais em que vivemos atravessarem esta ou aquela crise.

Que atletas descreve como sendo os melhores?
Portugal tem atletas, masculinos e femininos, que regularmente têm estado entre os dez melhores da Europa do seu escalão e categoria. Assim, dos atletas de Portugal que estão em actividade, o currículo do Hugo Passos é objectivamente o que mais sobressai.

Como estão as nossas Selecções Nacionais?
Estamos a iniciar um novo ciclo olímpico e as Selecções Nacionais passam consequentemente por um processo de ajustes a um novo ciclo de trabalho e a um novo ciclo de objectivos. Estamos neste momento a tentar alargar a base de atletas que integram os treinos da concentração permanente, quer masculinos quer femininos, tanto em Lisboa, como em Setúbal, de forma a podermos elevar o nível e a qualidade do trabalho desenvolvido. Integrámos também 2 atletas de fora da área da Grande Lisboa no Centro de Alto Rendimento, o Dário Rafael do Delgadense e o Joel Machado de Tibães, para tentarmos potenciar os valores que surgem for dos dois distritos que têm concentração permanente. Estamos já com os olhos postos em Londres, em 2016 e em 2020, não é por acaso que a Luta é das modalidades com um número mais elevado de praticantes integrados no projecto Esperanças Olímpicas do Comité Olímpico de Portugal.

Os atletas das Selecções aspiram chegar ao topo?
Só assim faz sentido integrar uma Selecção Nacional. Só faz sentido abraçar um projecto de vida como este, se possuirmos uma grande vontade de atingirmos todo o nosso potencial.

Como um atleta de clube chega a Selecção Nacional, a um nível de alto rendimento?
O treinar no grupo das Selecções Nacionais em concentração permanente está ao alcance de qualquer atleta com vontade, disponibilidade e um nível de prática acima da média, agora para integrar o grupo com participação internacional regular é necessário demonstrar talento, vontade em superar-se, disponibilidade em submeter-se a um regime de preparação muito exigente, uma enorme capacidade de resiliência e a capacidade em competir ao seu melhor nível.

Algum dia, veremos um desses atletas a subir a um Podium Internacional?
Os atletas das Selecções Nacionais de Portugal subiram ao pódio de torneios FILA mais de 90 vezes desde que ocupo o cargo de DTN. Deve a “família da Luta” e a sociedade reconhecer o mérito, grande esforço e dedicação que esses atletas e treinadores tiveram e têm diariamente para honrar o País e a Luta nacional. No mesmo período Portugal disputou 4 combates para a atribuição da medalha de bronze em Campeonatos da Europa de Cadetes e Juniores em 2 estilos diferentes. Este facto merece um grande relevo, na medida em que em toda a história anterior da modalidade, que relembro tem mais de um século, em apenas uma ocasião um português tinha lutado para uma medalha (o Hugo Passos em 1999). Não obstante a Vânia Guerreiro (em 2 ocasiões), a Ana Pereira e o Tiago Silva terem ficado à beira da medalha, é nossa convicção que a mesma poderá vir a acontecer a qualquer momento.

Como conseguimos um Campeão Europeu ou Mundial, ou mesmo um Campeão Olímpico?
Como se costuma dizer, as medalhas não se prometem, conquistam-se. Antes de responder a essa questão temos que ter a noção que Portugal em toda a sua história e contando com todas as modalidades teve “apenas” quatro Campeões Olímpicos. Temos ainda de ter a noção que Portugal é um país pequeno em número de habitantes, pequeno em taxa de participação desportiva e pequeno em recursos financeiros na área do desporto. Com isto em mente, só conseguiremos atingir esse nível de excelência fazendo um trabalho de laboratório de excelência e trabalhando qualitativamente muito acima dos nossos rivais de maior dimensão. Este trabalho é possível, extremamente difícil mas possível, mas está muito mais sujeito a imponderáveis do que países em que os recursos humanos, financeiros e estruturais sejam maiores. Ainda assim, é este um dos objectivos da FPLA, lutar pelos melhores resultados possíveis no panorama internacional.

A Luta é um desporto pouco divulgado a nível nacional, porque é que isso acontece?
Em Portugal e na generalidade das sociedades ocidentais, o mediatismo das modalidades é proporcional à capacidade que têm de gerar receitas, sejam elas de publicidade, de merchandising, de venda de jornais, etc. e não do seu valor educativo, social ou desportivo. Neste sentido, mais do que tentarmos mudar o que não está ao nosso alcance mudar, importa potenciar aquilo que verdadeiramente temos capacidade de potenciar, seja através dos magazines do calendário nacional na televisão, seja através de publicações como “O Praticante”, seja através da internet.

O que deve melhorar na Luta?
Não obstante a modalidade ter evoluído muito em termos qualitativos nos últimos anos, há sempre espaço para continuar a melhorar. Penso que as áreas prioritárias para os próximos anos deverão ser, ou continuar a ser, o contínuo alargamento da base geográfica da modalidade, o aumento da capacidade de autonomização do funcionamento das estruturas da modalidade (associações e clubes), e a melhoria na capacidade de comunicação interna e externa.

Os Clubes que temos dão tudo pela modalidade?
Estou convencido que as secções da modalidade dos nossos clubes dão o melhor de si pela modalidade. Agora isto não invalida que o envolvimento do clube com a sua respectiva secção seja de diferentes níveis em diferentes clubes, até por consequência de dinâmicas sociais que tornam o trabalho associativo baseado no voluntariado e em práticas benévolas um fenómeno em crise nos nossos dias.

Quais são os melhores clubes actuais? E já agora os melhores treinadores?
É muito difícil responder objectivamente a essa questão. O que é o melhor clube? Que clube tem mais importância para o desenvolvimento da modalidade?
O clube que é Campeão Nacional de Equipas ou o clube com mais títulos de Campeão Nacional Individual?
O Clube com mais atletas ou o clube que não tendo tantos atletas funciona num concelho ou distrito de grande importância estratégica para o alargamento da base geográfica da modalidade?
O clube que funciona há décadas ininterruptamente ou o clube com poucos anos de Luta mas com um grande envolvimento com a autarquia ou outros parceiros e que consegue angariar muitos apoios para a modalidade?
E o mesmo se passa com os treinadores.
Na minha perspectiva todos têm a sua importância e o seu valor, e o factor “melhor” é muito relativo, não é um valor absoluto, claro e indiscutível e é claramente uma questão a que não se pode responder, assim sem mais.

Quantas provas compõem o Calendário Nacional? E são essas provas suficientes para a modalidade?
O calendário nacional é composto pelo calendário federativo e pelos calendários associativos. O calendário federativo é composto por 11 eventos. O potencial de melhoria que existe, recai na articulação entre os calendários distritais e o calendário federativo, que em alguns casos pode ser melhorado, na medida em que os calendários associativos em conjugação com o calendário federativo, deverão ser mais do que o somatório das actividades dos seus clubes, deverão ter uma coerência e uma consistência que lhes permita abranger e potenciar a actividade dos seus clubes e praticantes por si só.

Que prova tem uma maior participação das equipas e atletas?
Os Campeonatos Nacionais (individuais e por equipas) são por excelência as competições principais, a nível nacional, para qualquer atleta ou clube. Ainda assim todas as competições integradas no Ranking Nacional são competições de participação elevada.

Qual é para si a melhor prova realizada pelos clubes?
Mais uma questão extremamente subjectiva. O que é que é melhor: um evento como o Torneio Internacional de Sesimbra, como era organizado pelo G. D. C. Conde 2, ou Lutagi organizado pelo Ginásio A. C.? Só para citar dois exemplos de dois eventos completamente diferentes, mas que têm um impacto extremamente positivo nos atletas. Estas coisas não se podem ver assim numa perspectiva unidimensional, é necessário fazer uma avaliação sustentada e a médio e longo prazo. Os torneios são positivos ou não, pelo valor absoluto que têm e não em função da comparação que é feita com outros torneios.

Que novos projectos para esta modalidade?
Os projectos, novos e velhos, passam por continuar a promover e a desenvolver a modalidade no limite das nossas capacidades. Penso que o maior desafio que a modalidade e a federação têm no imediato passam por conseguir integrar e promover os novos estilos não-olímpicos integrados na FILA e conseguir fazê-lo em benefício de todos os estilos, nomeadamente os olímpicos.

Partilhe connosco uma história desta modalidade que o tenha marcado.
Como podem calcular ao longo do tempo que faço parte da família da Luta vivi ou assisti a muitos momentos marcantes. Desde a sensação de ter o árbitro a levantar-me o braço em sinal de vitória num Campeonato do Mundo, passando pelo ver uma grande prestação dum lutador ou duma lutadora da selecção nacional num grande evento a partir do canto do tapete, até presenciar e viver por dentro a evolução dos quadros competitivos da modalidade a nível nacional ou o processo de implementação e aplicação do sistema de graduações são com certeza momentos muito marcantes. Mas não posso deixar de descrever aqui aquele que me parece ser um excelente exemplo de que tudo é possível, que é o último combate do Kareline, a final da Luta Greco-Romana, da categoria de 130 kg, nos Jogos Olímpicos de Sidney. Na altura custou-me muito ver um ídolo cair no último combate da sua carreira, mas logo de seguida percebi que a Luta teve no imediato uma exposição mundial, que não teria com o quarto título olímpico de Alexander Kareline, e que a longo prazo a mensagem de que até o maior lutador de todos os tempos não é imbatível, que até alguém que cresceu numa pequena localidade rural, com um enorme esforço e dedicação, como Rulon Gardner, pode vencer o “invencível”. Esta é uma “moral” fantástica para a história da Luta.

Que última mensagem gostaria de deixar aos leitores desta entrevista?
Que as Lutas Amadoras, a Luta Olímpica, a Luta, como queiram chamar a esta belíssima modalidade, é uma actividade que é para todos, que promove um sem fim de valores éticos, que promove a auto-estima, a auto-confiança, o espírito de entreajuda, a tomada de decisão, o pensamento estratégico e a perseverança de quem a pratica e em termos físicos é extremamente completa solicitando todos os segmentos corporais de um modo completo e harmonioso e que se ainda não a experimentou, deve experimentar assim que tenha oportunidade, pois irá certamente beneficiar com a experiência.

Obrigado Pedro Silva pelo tempo disponibilizado e por ter respondido a estas perguntas de um modo aberto e sincero.
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